
As VANITAS (vaidades) são as expressões artísticas que traduzem, de maneira simbólica e num registo eloquente, sibilino, a nossa relação conflituosa com a morte. São formas artísticas históricas, datadas no tempo (e no entanto de sentido intemporal), que nos confrontam com a maior doença colectiva da humanidade, que é a angústia que resulta da consciência aguda da mortalidade.
Mórbidos, fúnebres, macabros, tétricos, são bodegones intemporais, porque anunciam a verdade mais radical de todos os tempos, de sempre - a Morte - o fim súbito e derradeiro do epicurismo instante de todos os tempos, que aproveita com sofreguidão a precaridade escassa dos momentos agradáveis e felizes da existência, as raras oportunidades de gozo, e deleite, dos chamados "pecados veniais" (os cabalísticos sete vícios). Para os "pecadores" a honesta volúpia dos prazeres (infelizmente) demasiado efémeros.*
Não por ser o lado B ou eu gostar do lado alternativo das coisas prefiro o titulo DEATH AND ALL OF HIS FRIENDS do que VIVA LA VIDA, para o novo álbum dos Coldplay.
Tal como as pinturas Vanitas referentes á arte, á aprendizagem e ao tempo, este álbum dos Coldplay é referente a esses instantes: a produção de arte e o que faz dela o que é, a evolução e a morte e o consequente nascimento de algo que vem com o tempo. tal como a pintura esteve, os Coldplay estiveram mortos e voltaram a renascer, como a nobre arte de pintar. superaram o seu mais recente passado, voltando-se a encaixar no seu tempo com um proposta muito interessante e mais complexa que nunca - não se brinca com a morte!
La Liberté guidant le peuple de Delacroix é resgatada para a capa do álbum. Delaroix pinta frequentemente sobre a extrapolação do presente para o futuro, sobre morte e renascimento. Os seus quadros estão repletos de mensagens encriptadas, códigos por descobrir, pequenos sinais, DAAOHF também estará?
O album está claramente dividido em duas partes e daí os dois títulos (mais uma mensagem?):
1ª parte:
Life in Technicolor
Cemiteries of London
Lost!
42
Lovers in Japan/Reign of Love
Yes
Viva La Vida
2ªparte:
Violet HIll
Strawberry Swing
Death and All His Friends
Começamos por uma viagem mística sobre Londres e acabamos a 1ª parte com um piscar de olhos a uma profecia, numa musica sobre como viver mas transformada num romance político bem ao estilo de Martin.
Abrimos a segunda parte com o single Violet Hill, que se faz destacar fortemente de todo o resto do álbum e demarca o segundo momento, política! uma abertura para uma parte mais crua, mais armada contra a realidade- se a primeira parte era uma viagem de cores e sabores onde mergulhamos no nosso espirito e somos esfaqueados pelas guitarras de yes! a segunda precavêem-nos que o mundo é um sitio frio (snow) e que todos marchamos no mesmo sentido a não ser que nos amemos -e por falar em amor o álbum começa como acaba (morre e volta viver).
Significado directo e último das vanitas, explícitas que são na sua referencialidade óbvia, é sobretudo o de uma advertência séria, severa, um verdadeiro aviso, uma repreensão lapidar sobre a ignorante leviandade das vaidades mundanas, a inconsciência alheada dos excessos e finitudes várias do Homem - os seus vícios e horrores, as suas paixões desonestas, desvairadas de cegas, funestas, os seus apetites venais insaciáveis, as suas perigosas irracionalidades, as suas pulsões inconfessáveis -; e, em geral, uma distância circunspecta por tudo o que se aprecia, sem freio e pudor, com desbragado hedonismo, neste mundo de carnalidades e materialismos primários, doentiamente consumista e fetichista, inundado pelos prazeres mais desatinados. Que têm um fim! - é esse o aviso.*
Este é de facto o aviso, como o 11º mandamento que deverá salvar a terra e a humanidade - Os Coldplay mandam-nos amar tudo e todos. através de notas, acordes, conflitos entre a bateria a a guitarra, com as palavras que por vezes profetizam, os Coldplay mostram-nos um mundo perfeito num universo mortal de vícios e prazeres passageiros- isso não se faz! deixam-nos agarrados á vida e a desejar celebra-la através de uma morte progressiva do que somos!
Ha algo que só eles perceberam, e nós ouvimos.
Para além de todas estas pistas DAAOHF é o álbum mais ecléctico dos Coldplay, será que a babilónia virá a caminho? ou precisamos de morrer todos primeiro para chegar lá e celebrarmos a vida - VIVA LOS COLDPLAY E TODOS OS SEUS AMIGOS!
*Luís Calheiros, disponivel em http://www.ipv.pt/millenium/pers13_4.htm




